Eu, a bike e a cidade

Eu, a bike e a cidade


Não me lembro bem a data, mas foi um natal, há muito tempo atrás. Ganhei minha primeira bicicleta, uma Monark infantil dobrável! Em termos de ideia, muito legal, em termos de design, nem tanto. Quando dobrada ocupava mais espaço que sem dobrar!


Nessa época estava começando a aprender a pedalar, rodinhas eram necessárias. Nunca me acostumei a tirar uma rodinha e treinar meu equilíbrio assim. Parti direto para a aventura de pedalar sem as duas rodinhas. Depois de esgotar meu treinos com as duas e me sentir seguro, falei um dia - pode tirar as duas!


E funcionou! Nunca cai por falta de equilíbrio, por ter medo de cair da bicicleta, minhas quedas foram por ir além do que era possível fazer sobre duas rodas. 


Devido as aventuras “radicais”, minhas bicicletas sofriam. Essa dobrável quebrou o quadro de tanto que eu descia meios-fios e tentava saltar, como se fosse uma motocicleta!


A medida que fui crescendo também foram as bicicletas. A segunda foi uma Caloi Fórmula C, concorrente da Monark Tigrão, que simulava uma moto custom, com garfo longo, guidom seca-sovaco e selim longo, com “santantonio” (sissy bar para os mais jovens). A Fórmula C não tinha o mesmo apelo da Tigrão, mas dava conta do recado. Tinha uma novidade, guidom bipartido em “V”, outra falha de design. Era difícil de regular e toda hora afrouxava. Como eu não andava simplesmente, queria maiores emoções, o guidom foi o primeiro a quebrar, um belo dia voltei pra casa guiando com uma barra do guidom e a outra pendurada. Troquei por um conjunto de guidom tradicional. 


A segunda peça a quebrar foi o banco longo. Não aguentou as sucessivas pancadas pós saltos e partiu ao meio. Selim tradicional no lugar. Agora a bicicleta já parecia um Frankenstein de original só o quadro, as rodas e a cor, amarela! Alguns saltos mais tarde o quadro também não aguentou, dessa vez foi soldado e ficou bom novamente. Para evitar ferrugem tive que pintar, como não tinha a tinta da mesma cor, foi a cor que tinha disponível - vermelho, mas só onde foi soldado. 


Um belo dia encontrei uma lata de tinta óleo preta e secretamente mudei a cor da bike. Agora havia uma sensação de pertencimento incrível, como se eu houvesse montado a bicicleta, personalizado na verdade. 


Adorava essa bicicleta que só restava as rodas originais, nem freio tinha mais! Gastava a sola dos meus tênis freando com o pé no pneu de trás. Aos poucos a bicicleta foi deixando de ser pedalável e uma nova se fazia iminente. 


Foi no verão de 1978, se não me engano, que ganhei uma Monark Monareta, essa era vinho e me acompanhou por muitos anos. Foi roubada, recuperada e também transformada: freios, pára-lamas, selim! 


Eu tinha 11 para 12 anos e essa bicicleta trouxe uma das memórias mais queridas para mim. Na época não havia tanto carro nas ruas, e apesar do relevo, Cachoeiro de Itapemirim era pedalável. Eu pedalava para todos os cantos em Cachoeiro, subia morro (empurrando) e descia (como um louco). Foi numa semana de férias que resolvi sair da minha casa na Rua 25 de março (trecho da antiga Dr. Deolindo) e ir até o alto da Avenida de Ouro (Av. Francisco Lacerda de Aguiar), a principal via de acesso à cidade. De lá, próximo ao Posto Max (hoje Posto Sena) eu começava minha descida, com algumas pedaladas soltava as mãos do guidom e descia cantando e testando minha habilidade de não colocar as mãos no guidom, que só não consegui superar para fazer a curva ao redor da praça Gilberto Machado, em frente ao Pronto Atendimento da Unimed. Dali ia até em casa, passando inclusive sobre os quebra-molas existentes. 


Fiz isso por cinco dias e teria feito por mais tempo, se não tivesse contado aos meus pais sobre minha façanha. Acredito que esses cinco dias em cima da bicicleta foram a mais exata representação de liberdade que já tive!


Isso me fazia dono da cidade, mas não me dava status ou poder, simplesmente me senti lá, um só ser! Eu, a bike e a cidade!

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