Diário de bordo, Rodrigo Mattos: Dia Mundial sem Carro
22/09/2017
Comecei o dia pensando em ser mais um cidadão consciente e deixar o carro em casa. 

Selfie no elevador

O Viking!


Os suportes me trouxeram a memória os utilizados nos trens de Copenhagen. Que funcionam como deveriam e são acompanhados de assentos dobráveis, que permitem o dono da bicicleta sentar ao lado de sua magrela.

Luis Gustavo, Polly e eu no Bike GV.
Fiz meus planos, mas de início tive que adiar a adesão. Vitória ainda não está preparada para cidadãos conscientes, Não existem ciclovias suficientes para que os pais possam levar seus filhos, com segurança, para a escola de bicicleta. Sei que minha filha adoraria pedalar a caminho da escola, mas a infraestrutura é insuficiente. Então, fomos de carro mesmo.
Me sinto estranho usando um carro enorme e guloso, falando de bicicletas e sustentabilidade, mas ultimamente meus veículos foram adquiridos por herança e tenho tido pouca influência na escolha do modelo. Cavalo dado não se olha os dentes, não é mesmo?
Por isso, optei por sublimar esse ponto negativo e seguir pensando positivamente, divulgando o uso da bicicleta como solução para muitos problemas urbanos.
O bom espírito se reflete no selfie tirado no elevador com as crianças. Coloquei meu souvenir Viking e parti para explorar o dia.
Selfie no elevador
O Viking!
Deixei as crianças e voltei para casa e deixei o carro na garagem. Preparei meu material para ser acomodado no bagageiro da bicicleta e parti.
Foram quase três minutos de meu apartamento ao ponto do Bike GV, a impressão foi de menos tempo. No ponto o ônibus já estava lá esperando a hora de partir. Entrei e comecei a conversar com dois ciclistas/bicicleteiros que já estavam a bordo.
Éramos somente nós três e logo eles começaram a narrar os benefícios da bicicleta, há quanto tempo pedalavam e suas aventuras e desventuras, sobre duas rodas.
Um deles trabalha como porteiro em um bairro da capital e conta como foi difícil passar nove meses sem pedalar, devido a uma queda, causada pela pista molhada, que combinada com a pintura da ciclovia, causou uma grande lesão no joelho. Isso não o desestimulou, só aumentou sua vontade de se recuperar e voltar a pedalar.
Foi minha primeira experiência com o Bike GV. De início percebi que o acesso não é fácil. Os degraus são altos e não permitem que o embarque seja feito por uma plataforma, porque a porta não tem altura suficiente para passar. Os suportes das bikes são relativamente frágeis e pouco intuitivos. O ônibus comporta 18 bicicletas, mas nos horários de pico, circulam com cerca de 23 a 26 bikes. As excedentes ficam soltas.
Os suportes me trouxeram a memória os utilizados nos trens de Copenhagen. Que funcionam como deveriam e são acompanhados de assentos dobráveis, que permitem o dono da bicicleta sentar ao lado de sua magrela.
Detalhe do trem em Copenhagen
A viagem é bem sacudida, tive a impressão de que os amortecedores estavam vencidos e a velocidade e condução do motorista estavam acima do desejado. Foram cerca de sete minutos para chegar ao destino. A linha do Bike GV é a número 400 da CETURB, e faz o trajeto da Praça do Cauê, em Vitória, até o Shopping Praia da Costa, em Vila Velha. São somente dois ônibus e quando um precisa ficar na garagem, a linha funciona com um veículo apenas. Isso causa problemas para os usuários, criando atrasos e falta de confiança no sistema.
Não existe assentos para os 18 usuários previstos, são somente 10 lugares, espremidos no fundo do ônibus, onde não cabem os 10 passageiros, especialmente se forem do meu tamanho.
Minha conversa com o porteiro, que estava voltando para casa, depois de trabalhar a noite toda, me rendeu uma companhia bem humorada e solícita, me indicando o melhor caminho para chegar a UVV, onde leciono. Pedalei com ao seu lado até próximo a sua casa, de lá nos despedimos e segui pensando em quanto a gente perde em contato social, quando usamos o carro.
Cheguei a UVV energizado. O sangue circulava mais rápido, o raciocínio mais ativo e tinha vontade de falar para todo mundo que tinha decidido usar a bicicleta. Os poucos que falei ficaram surpresos por ter usado a bike.
Na volta para casa encontrei colegas no mesmo ônibus e a conversa fluiu sobre o sistema e o workshop que planejo ministrar em outubro, visando mostrar como falta infraestrutura e como poderiam ser as intervenções para melhorar o sistema cicloviário da Grande Vitória.
Luis Gustavo, Polly e eu no Bike GV.
Fechei o dia conversando com um amigo, que trabalha em uma rede de comunicações, sobre uma série de reportagens sobre mobilidade urbana na Grande Vitória, mostrando que é possível fazer sem gastar muito e sem demora.
Por último fui caminhando com a família comer uma pizza, sem culpa!
Cheers!
Show. Belíssimo relato. Aguardando muito por ele. 👍👍👍❤❤
ResponderExcluirGostei. Muito legal o relato.
ResponderExcluirOntem andando co minha pequena tive a mesma sensação sobre como o carro nos rouba a capacidade de pensar no outro.
Fui fechada por alguém que parou o carro em cima da calçada.
Ariene, obrigado por sua resposta. Primeiro, muito cuidado e olho aberto ao andar nas ruas. Ainda não temos a cultura do compartilhamento dos espaços públicos viários. É uma construção que ainda levará um tempo. Mas, ao mesmo tempo, precisamos ocupar esses espaços e mostrar que pode ser compartilhado de forma democrática. Caminhabilidade e mobilidade humana são fundamentais para a vida urbana e a democratização dos espaços públicos.
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