Diário de bordo, Rodrigo Mattos: A difícil tarefa de educar

Já há algum tempo defendo um maior uso de bicicletas nas cidades, mas percebo que os encontros, palestras e eventos sobre o tema, reúnem em sua maioria aqueles que concordam com esse aumento da participação ciclística na vida urbana. 

Neste caso, o esforço me parece ineficiente, porque estamos falando somente para receber palmas, para uma plateia que somente concorda com nossa visão. É preciso encontrar uma forma, uma didática para conquistar os céticos, os refratários, os que discordam. 

Quando me manifesto em reuniões com as comunidades, sou rechaçado se menciono exemplos de fora, europeus ou norte-americanos, sob a alegação de que não somos a Dinamarca ou os EUA. Sim, não somos, mas isso não pode impedir-nos de buscar soluções testadas e aprovadas. Que são melhores que as nossas. 

Há poucos dias ouvi de um amigo meu que é melhor copiar uma boa ideia, do que inventar uma ruim. Não me lembro quem ele estava citando, mas faz total sentido. Basta lembrar da nossa tomada de três pinos, única no mundo!

Por isso, continuo vendo soluções urbanas paliativas, negando a tendência mundial e adiando nosso momento de melhorar, só por não sermos dinamarqueses ou americanos. E me pergunto: onde estamos errando?

O erro está em continuar a fazer planejamento urbano, como se faz a décadas. Com base nos modelos de Robert Moses, que ajudou nos projetos de São Paulo, colocando o carro e seu fluxo constante como prioridade.

Nossas prefeituras e governos estaduais ainda pensam na realização de um projeto salvador, que será implantado e todos os problemas desaparecerão. Tudo de forma muito permanente e custoso, principalmente para aqueles que vivem próximo ao local onde está sendo executado. Haja vista, a obra da Avenida Leitão da Silva, que colocou comerciantes fora do comércio e prejudicou muito mais do que seus benefícios previstos. E pior, com um projeto ultrapassado e deficiente. 

O erro está em não ser flexível, em se apegar as burocracias do sistema. Está em não comunicar, claramente, suas ideias. E saber reconhecer quando as técnicas de projeto, são suplantadas pela aceitação da população e a natureza dos agentes envolvidos. 

Não adianta ter uma via com raios de giro perfeitos, se não temos quem use suas curvas. Não adianta fazer ciclovias protegidas por cercas, para evitar “acidentes”, se estas não forem adotadas pelos ciclistas e não estimularem crianças e idosos a usarem esses benefícios. 

O erro está em não prestar atenção no comportamento humano, em projetar de dentro do escritório, desconsiderando a antropologia local. O novo urbanismo se preocupa em estudar o comportamento e as necessidades de seus usuários. 

Voltando a falar das comparações com outros países, vejo a Colômbia conquistar uma posição de destaque em soluções urbanas, mesmo sendo um país de terceiro mundo, com problemas muito similares aos nossos. Isso deve facilitar o diálogo, porque afinal de contas o Brasil é “superior” e “mais evoluído” que nossos vizinhos colombianos. 

Por que a Colômbia pode copiar os europeus e americanos e fazer funcionar, nós brasileiros não podemos?

Por que a Colômbia se inspirou no BRT de Curitiba e fez do Transmilenio, referência mundial em transporte de massa?

Por que as Comunas de Medellin (favelas) podem ter escadas rolantes e as nossas não?

Por que as bibliotecas e parques colombianos são usados e conservados pela população e não possuem muros “protegendo” da violência?

Por que um país imerso num conflito armado e tráfico de drogas, de décadas, conseguiu reverter essa situação?

Por que nós brasileiros não podemos copiar a Colômbia?

Educar é uma arte! Entender como explicar o mesmo conteúdo para diferentes audiências e fazê-lo de forma efetiva, é a chave para implantar novas ideias e ensinar plenamente. 

Em tempo: Robert Moses foi secretário de transportes de Nova York, na década de 1960, e construiu vias expressas como a Cross Bronx Expressway, que resultou na deterioração social do bairro, por impedir que seus moradores atravessassem a CBE, eliminando relações de trabalho e vizinhança. Foi fortemente combatido por Jane Jacobs, que defendia as relações de rua como parte essencial na saúde das cidades. Relações estas que foram sumindo com as políticas urbanistas do movimento moderno, liderado por Moses. 

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