Diário de bordo, Fabiano Dias: Caminhar...

Caminhar...

"[...] Roubaram a picape de Sono na frente de seu estúdio em West Oakland, São Francisco, e ela me contou que, apesar de todo mundo reagir à notícia como se fosse uma catástrofe, ela não estava lá muito chateada e não tinha a menor pressa de repor o veículo. Disse que era uma alegria descobrir que seu corpo era adequado para levá-la aonde ela tinha de ir, e era uma dádiva desenvolver uma relação mais concreta e palpável com a vizinhança e seus moradores. Falamos da noção mais solene de tempo que se tem a pé ou no transporte público, porque é preciso planejar e agendar as coisas com antecedência, e não deixá-las para a última hora, e falamos da noção de espaço que só se obtém a pé. Muitas pessoas hoje em dia vivem numa série de ambientes internos - o lar, o carro, a academia, o escritório, lojas - e divorciados uns dos outros. A pé, tudo permanece conectado, pois, andando-se, os espaços entre esses ambientes internos são ocupados da mesma maneira que eles mesmos. Vive-se no mundo interno, e não nos ambientes internos erigidos para deixá-los de fora" (SOLNIT, Rebecca. A história do caminhar. São Paulo: Martins Fontes - selo Martins, 2016, p. 28).  

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