Diário de bordo, Rodrigo Mattos: Cykelkokken, jantando a beira do canal, em Copenhagen.


Cykelkokken chef, Morten Wulff, em sua cozinha ambulante, preparando nosso jantar à beira do canal. 

Ontem escrevi sobre o fato de comprar pão em uma bicicleta e conversar sobre a cidade e sua vivência e lembrei de quando estava escrevendo minha dissertação e fui a Copenhagen, para um Master Class em mobilidade urbana, em junho de 2016. Já no primeiro dia de curso, o grupo teve uma enxurrada de informações e experiências que um simples post não é capaz de descrever. 

Nosso anfitrião, Mikael Colville-Andersen, CEO do Copenhagenize Design Co., depois de um dia palestras e passeios de bicicleta pela cidade, nos levou para jantar (as refeições estavam inclusas no pacote do curso). Fomos pedalando por uma das margens do canal principal de Copenhagen, onde antes ficava o porto, que com a renovação iniciada em 1996, tem suas margens ocupadas por restaurantes e atividades de lazer, proporcionando novos espaços públicos para seus cidadãos. 


Eu e Mikael durante o jantar. 

Jet lag, excitação, fuso-horário trocado e a entrada do verão europeu, fez a hora do jantar parecer um lanche da tarde. Eram 19:30, aproximadamente, quando o chef Wulff apareceu com sua Bullitt, convertida em cozinha. Na frente da bicicleta tinha um grill, com peças de carne de porco, assando na brasa. O cheiro da carne veio perfumando e defumando a cidade, desde que partiu de seu Quartel-general. 

Cykelkokken é seu negócio, a palavra significa, literalmente, cozinha na bicicleta. Morten Wulff idealizou e vem adaptando sua bicicletas, buscando diferentes configurações, para se adequar ao cardápio que vai servir no dia. 


Detalhe do que foi servido. 

Nosso jantar foi uma seleção de folhas verdes, legumes ao natural, batatas sautée e molhos a base de azeite balsâmico e outros condimentos, além claro do fumegante pernil de porco na churrasqueira!

Não me lembro bem quem trouxe, mas tudo isso não podia ficar sem cerveja. Costume dinamarquês que me lembrou muito o Brasil. O álcool está sempre presente nas reuniões e momentos de descontração. Sua presença é vista como catalisadora e bem aceita socialmente. Isso me impressionou, porque minha maior referência internacional em relação a presença de álcool em público, era dos EUA, principalmente depois de ter morado treze anos lá. 


Momento de descontração de Morten, 
capturado enquanto arrumava os ingredientes. 

Tudo isso acontecendo e eu absorvendo tudo como uma esponja! 

Arquitetura medieval misturada com prédios recém construídos, assinados por nomes como Jean Nouvel e Bjarke Ingels; conceitos inovadores em políticas públicas, experiência junto a um grupo de diferentes origens, profissões, credos, entre outros, unidos com o propósito de aprender e entender como funciona a cidade quando a bicicleta está diretamente envolvida; um final de dia à beira-mar, com um jantar servido em uma bicicleta, sobre um deck de madeira, que não tem guarda-corpo (os dinamarqueses adoram pular dentro d’água, faça frio ou calor), construído com o objetivo de aumentar os espaços públicos da cidade, permitindo uma maior integração do cidadão com o tecido urbano, investindo em uma maior sensação de pertencimento e confiando na capacidade das pessoas de tomarem decisões próprias, sendo responsáveis por elas mesmas.

No fim do jantar, eu estava cansado física e mentalmente, não consegui acompanhar o grupo para uma visita ao pub e micro cervejaria War Pigs, para degustar os mais de vinte tipos de cerveja produzida por eles. 

Pedalei pela cidade, tentando lembrar o caminho até o apartamento, me perdi um pouco (talvez pelo nível de álcool), mas consegui me localizar, com isso, pude ter uma experiência ainda maior de Copenhagen. Estacionei a bike na calçada, junto a outras tantas e tranquei o singelo cadeado, na roda de trás, subi e fui dormir, pois no outro dia tinha mais!

Toda experiência que tive em Copenhagen, mudou minha forma de olhar a cidade. Me fez entender que não é uma rua bem pavimentada, ou uma casa com a janela caída, ou pessoas fazendo tudo dentro da lei, que produzem qualidade de vida. É a rua pavimentada pela razão certa, a janela caída pelo uso diário de abrir e fechar por tantos anos e das pessoas seguindo a lei, porque a lei foi feita pensando nelas. 

Isso possibilita iniciativas como a do Chef Wulff e sua cozinha sobre rodas, momentos de convivência entre pessoas e memórias que se fixam por toda a vida. 

Hygge!

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