Diário de bordo, Rodrigo Mattos: Comprando pão na bike
Eduardo em sua Gallo 1958, padeiro e urbanista.
Comecei falando do aplicativo para celulares que permite mandar e receber fundos, mesmo que esteja sem dinheiro vivo ou cartão de crédito à mão. Que certamente aumentaria suas vendas. O papo foi evoluindo e fiquei sabendo mais sobre seu negócio, a padaria Dona Rose, que vem devidamente representada em sua logomarca e celular (27 99883-6497), estrategicamente localizados em sua cesta e no quadro da bicicleta.
Antes que a conversa ficasse muito longa e saísse de lá sem as devidas apresentações, perguntei seu nome e fiz questão de saber se ele me permitia fazer uma foto e escrever sobre nossa conversa. O que me foi prontamente autorizado.
Ele é Eduardo dos Santos. Um brasileiro que, com certeza, faz a diferença!
Para melhor ilustrar, Eduardo é padeiro, com o segundo grau completo e mais alguns cursos especializantes, morador do Romão. Percorre diariamente a região da Ilha de Santa Maria, Bento Ferreira e Enseada do Suá, vendendo sua produção de bicicleta e fazendo também suas compras de bicicleta, só que de outro modelo, um triciclo baú.
Mas não foi só o fato de fazer isso de bicicleta, foi a forma como praticamente me deu uma aula de urbanismo e antropologia, de como a bicicleta possibilitou a recuperação da humanidade em suas vendas, onde ele busca o contato social, o olho-no-olho.
Na sequência, Eduardo me falou do sonho de montar um Museu do Ambulante, para registrar a importância histórica desses profissionais, que de alguma forma dão sua contribuição para a formação das cidades. Falou do carro do milho, do vendedor de pamonha, da flexibilidade desses profissionais em chegar aos mais diversos patamares da sociedade e como valorizar essa contribuição.
Do museu, fomos para os investimentos em mobilidade urbana na cidade e como seria bom se tivesse uma ligação entre Vitória e Vila Velha, por uma ciclovia. Discutimos a possibilidade de se construir uma ponte exclusiva para ciclistas, aproveitando os pilares da Terceira Ponte e utilizar um sistema de ponte levadiça, para os momentos de passagem de navios, nas entradas e saídas do Porto de Vitória, o que permitiria uma inclinação muito menor que a da ponte de automóveis, e muito provavelmente teria um leque maior de usuários. Os momentos de fechamento da ponte seriam mínimos, seguindo os horários existentes hoje, e a altura no vão central seria suficiente para o tráfego das embarcações menores, sem necessidade de interromper o tráfego.
Falei de alguns planos que tenho, como a intervenção na Rua Carlos Moreira Lima, em Bento Ferreira e do parque público na Av. Beira-Mar, entre a Ilha da Fumaça e a Curva do Saldanha, onde seriam instalados equipamentos de lazer e comércio para fomentar o uso da área. Essa proposta viria aliada a um projeto de despoluição da baía de Vitória, permitindo sua balneabilidade.
Minha proposta piloto para um parque linear na Rua Carlos Moreira Lima, em Bento Ferreira.
Além de minhas ideias, falamos de segurança, apropriação do espaço, percepção espacial, entre outros assuntos.
Eduardo se mostrou um entusiasta, falou das adaptações que fez em sua bicicleta, trocando a coroa e a catraca, para maior velocidade final. Segundo ele, consegue atingir 60 km/h com a bike, se retirar a cesta e alguns pesos extras. O quadro é originalmente de uma Gallo alemã, de 1958. Em perfeito estado de conservação.
Disse a ele que acadêmicos em âmbito mundial tem o mesmo discurso que ele e quão importante foi saber que ele percebe com riqueza de detalhes as necessidades de uma cidade mais humana, mesmo sem ser Doutor ou Mestre. Só pelo fato de vivenciar a cidade, verdadeiramente.
Sua cultura urbana, seu bom humor e sua visão de mundo, me fez revirar os bolsos e achar dinheiro suficiente para, finalmente, comprar um de seus pães. Que posso dizer, é de qualidade, uma massa macia e saborosa.
Eduardo, obrigado por me proporcionar um início de dia tão gratificante, por um momento de reflexão, baseado em ideias e sugestões positivas, sem cair na velha retórica da difícil vida do brasileiro.
Obrigado por revigorar a minha chama de esperança!
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