Diário de bordo, Rodrigo Mattos: Linhas do desejo

Já há algum tempo planejo escrever sobre linhas do desejo, mas acabo deixando para depois e meu desejo se desfaz. Hoje, no entanto, deixei minha procrastinação de lado e resolvi encarar meu desafio. 

Linhas do desejo são estudadas há muito tempo, quando ainda estava na faculdade de arquitetura, ouvi falar de uma experiência num campus de alguma universidade do mundo, que haviam deixado os espaços entre os prédios sem caminhos pré-definidos, somente grama e que o resultado das marcas no gramado resultariam nos caminhos a serem pavimentados. 

Pois bem, em minha experiência na capital dinamarquesa, em junho de 2016, aprendi que, o estudo dessas linhas do desejo fornecem informações importantes sobre as ações a serem tomadas pelo poder público. São elas que apontam o caminho preferido dos ciclistas e pedestres, e deixam claro que mesmo colocando barreiras para impedir que sejam utilizadas, sua natureza é mais forte e a população acaba por corromper essas barreiras e retomar ao traçado desejado. 

Copenhagen vem prestando atenção nessas linhas e percebendo que elas são um fator importante no planejamento urbano. Quando atendidas, a cidade fica mais amigável e sem espaço para uma arquitetura hostil. 

Dito isso, passei a notar pelos meus passeios de bicicleta pela cidade que Vitória tem prestado pouca atenção a este fato. 

Um ponto em particular me chama a atenção: a conexão entre a ciclovia da ponte de Camburi e a Praça dos Namorados. 



Como pode ser visto na foto acima, existe um trecho sem grama que conecta a ciclovia diretamente à praça. Esse é o melhor caminho para quem vem de Camburi, ou para lá vai, passando pela orla. 

É compreensível que antes da criação da ciclovia que liga a Praia do Canto à Praia de Camburi não se prestasse atenção ao detalhe, mas após sua implantação, ficou evidente que este é o caminho preferencial dos ciclistas. E o que foi feito?? NADA!

A preocupação com a mobilidade urbana que reelegeu o atual prefeito, escorre pelos ralos de nossa cidade. 

A força da linha do desejo é tão grande que seus usuários vão adaptando a situação, para que seu uso fique mais confortável, como pode ser constatado na imagem abaixo. 

Intervenção dos usuários na linha do desejo

Foi colocado um pedaço de pedra, para evitar que as rodas sofram com o impacto na quina da pavimentação.

Essa situação poderia ser resolvida sem alarde, sem grandes gastos, de forma simples. Mas permanece e o segundo e último mandato do prefeito que quer fazer de Vitória, a Amsterdam Capixaba, está acabando. 

Atender às linhas do desejo é ouvir a cidade e seus cidadãos. Pelo jeito nosso poder público parece sofrer de surdez crônica. 

Keep on biking!

Comentários

  1. Boa!!!! Salvo engano, chegaram a fazer isso na Ufes (?), nos caminhos ali perto da Biblioteca Central (ou não?)...comecar a perceber isso....

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