Diário de bordo, Rodrigo Mattos: Lágrimas na Chuva

Lágrimas na Chuva

“Quite an experience to live in fear, isn’t?!
That’s what it is to be a slave!
I’ve seen things, you people wouldn't believe, hmmm…
… attack ships on fire, off the shoulder of Orion.
I've watched C-beams glitter in the dark near the Tannhauser Gate.
All those moments, will be lost…in time, like tears in rain…”

[“…time to die…”]1 

O andróide Roy Baty em seu momento final. (captura de tela do filme blade runner)

Este famoso trecho do cinema, são as palavras finais de um andróide agonizante que, simplesmente, queria viver mais… e ser humano.

O filme dá a máquina a tarefa de ensinar o homem, como recuperar sua humanidade perdida, em uma sociedade distópica, onde a superpopulação da terra e sua dependência tecnológica, levou a raça humana a conquista de outros planetas, para cultivo de alimentos e colonização aos mais abastados, utilizando andróides como escravos. Isto é algo que ainda parece distante, mas lentamente continuamos a seguir neste caminho, com pesquisas de vida em Marte e expedições interplanetárias suicidas, quando há tanto a ser melhorado aqui na terra. Quando foi lançado, a data do futuro parecia muito distante… 2019. Hoje sabemos que a tecnologia não evoluiu tão rápido, ainda não temos carros voadores e robôs quase humanos, pelo menos, não como no filme.

Esta triste realidade. é ainda mais impressionante no livro "Andróides sonham com ovelhas elétricas?", de Philip K. Dick, escrito em 1968, que serviu de inspiração ao filme. Nele essa visão distópica é mais abrangente, as diferenças sociais são mais evidentes e as relações entre andróides e humanos, beira a discussão entre nativos e imigrantes. A dependência do homem com a religião e os instrumentos de manipulação de humor, refletem os casos de fanatismo religioso e a avalanche de remédios controlados para tratar depressão e outros problemas psicossociais.

Este assunto veio a tona, depois de assistir Blade Runner 2049, excelente conclusão do filme de 1982, e devido ao momento que estamos vivendo em relação ao desenvolvimento das cidades. Existe no momento uma “volta” ao passado, com o crescimento constante do uso da bicicleta e do caminhar, liderados por cidades como Copenhagen e Bogotá, com opções de mobilidade urbana que resgatam a escala humana da cidade, apesar de ainda haver muita resistência por parte dos adeptos do automóvel.

Escrevi há muitos anos sobre a demolição descontrolada das casas da Praia do Canto, sendo substituídas por inexpressivos edifícios, descaracterizando a cidade, apagando sua história, deixando para ser apreciada por fotografias e histórias contadas pelos mais velhos, memórias implantadas, como nos andróides de Blade Runner. Um dos últimos exemplos do avanço descontrolado da expansão imobiliária, ocorre com a demolição de uma antiga loja de lustres que sucumbiu ao status quo e se tornou uma farmácia. Outro sinal de que algo está errado, a proliferação de farmácias na cidade, mas isso fica para outra discussão.

A vida em apartamentos sempre me intrigou, sempre notei como as pessoas evitam compartilhar o elevador e são sempre momentos desconfortáveis, quando é necessário compartilhar este espaço confinado, com olhares evasivos e conversas inócuas sobre o tempo. São caixas empilhadas, isoladas no tempo e no espaço.

Os apartamentos, principalmente em edifícios que só possuem uma unidade por andar, parecem versões dos automóveis particulares que dominam o cenário de nossas cidades, pequenas bolhas de vida individualista, que desde da popularização do carro vem aumentando e afastando as pessoas de seu convívio social.

Estudos conduzidos na Europa2 e América do Norte3, apontam os malefícios do uso do automóvel particular, alguns deles são: hipertensão, obesidade4, irritabilidade, atitudes antissociais, segregação e aumento da violência social. Imagine se tivermos drones individuais voando por aí?

A cada movimento isolante da sociedade, gera um maior desequilíbrio, muitas vezes refletido no aumento da violência. A tecnologia controlando e monitorando cada passo, criando relações sociais virtuais em jogos como Second Life, aplicativos como Facebook e Snapchat, e desenvolvendo robôs que andam e se assemelham a nós. Vamos vivendo num mundo mais frustrante e estressante a cada dia.

O carro se tornou figura intocável, senhor das ruas e estradas, gerando medo e preocupação, inibindo qualquer tentativa de alteração de seu status quo. As grandes corporações automotivas se organizam, com estudos que tentam desmentir os danos causados pelos automóveis3. Existe sempre uma proposta de equipamento de segurança, para previnir acidentes. Sempre preservando o ir e vir do carro, sua arrogância intocável, fazendo do ciclista ou pedestre um invasor, quando deveria ser o contrário. Afinal cidades deveriam ser feitas para pessoas e suas relações, preservando e estimulando o bem estar deste ser frágil que nós somos.

Concluindo, não sou contra os carros, nem acho que somente as bicicletas tenham o poder de melhorar a vida na cidade, mas é necessário que cada elemento causador de mobilidade se encaixe de forma eficiente cooperativa e não exclusiva, que nossa densidade seja mais social e cheia de encontros. É preciso que a mobilidade seja, não só de pessoas, mas de classes sociais, de experiências, de vida. 

O valor de vivenciar um momento embaixo de uma árvore, deixando por alguns momentos a preocupação de pagar as contas, ou tomar um café no balcão do bar, observando o movimento da rua ao lado de um amigo, é imensurável. Viver bem é um conjunto desses pequenos momentos de felicidade, combinados com a busca incessante por esses momentos, essa busca precisa de um ritmo que realce os momentos de felicidade e que esses possam ser notados e assimilados. Se não encontrarmos um equilíbrio para essa busca, entre tecnologia e natureza, continuaremos a caminhar para a realidade de Blade Runner e veremos nossa humanidade se perder como lágrimas na chuva.


Referências:
  1. “Uma experiência e tanto viver com medo, não é?!/É isso o que representa ser um escravo!/Eu tenho visto coisas, que vocês não acreditariam, hmmm…/…naves de ataque em chamas, nas proximidades de Orion/Presenciei, Raios-C brilhando no escuro próximo ao Portal de Tannhauser./Todos esses momentos, se perderão…no tempo, como lágrimas na chuva…/[…hora de morrer…] (palavras extraídas da fala do personagem Roy Baty, do filme Blade Runner, de Riddley Scott, 1982)
  2. Douglas,Margaret J. Watkins, Stephen J. Gorman, Dermot R. Higgins, Martin. Are cars the new tobacco?, Journal of Public Health, Volume 33, Issue 2, 1 June 2011, Pages 160–169, https://doi.org/10.1093/pubmed/fdr032
  3. Woodcock J, Aldred R. Cars, corporations, and commodities: Consequences for the social determinants of health. Emerging Themes in Epidemiology. 2008;5:4. doi:10.1186/1742-7622-5-4.
  4. Buekers, J., et al., Health impact model for modal shift from car use to cycling or walking in Flanders: application to two bicycle highways. Journal of Transport & Health (2015), http://dx.doi.org/10.1016/j.jth.2015.08.003i

Comentários

  1. Rodrigo.....o final de semestre como teacher me privou de me dedicar ao nosso projeto...mas muito agradecido fiquei ao ler esse seu artigo. Meu amigo e Parça.....meus parabens! O mestrado lhe fez muito bem. Recomendo aumentar o texto e publicá-lo em algum periódico (agora que o PPGAU é 4 no CAPES, mais do que necessário). 👏👏👏👏👏👏

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