Diário de Bordo, Fabiano Dias: o Seminário "E aí, vamos de bike?" e as discussões sobre a mobilidade e o PNUM 2017, em Vitória, e as discussões sobre caminhabilidade





Esse mês de agosto foi bem agitado em Vitória, no Espírito Santo, quanto às discussões urbanas. Além dos debates sobre as mudanças no Plano Diretor Urbano (PDU) da cidade e intervenções em ruas para a criação de ciclovias, já apresentadas aqui e aqui pelo nosso Rodrigo Mattos, a cidade ainda recebeu um seminário local sobre mobilidade urbana através das bikes, realizado pelas UFES em parceria com a Rede Gazeta, e no final do mês, ainda o PNUM - REDE LUSÓFONA DE MORFOLOGIA URBANA, onde um dos temas de discussão sobre o estudo da forma urbana e suas estruturas (a Morfologia) foi a "caminhabilidade" da cidade contemporânea.

Abertura do Seminário "E aí, vamos de bike?" na Rede Gazeta

O Seminário "E aí, vamos de bike?", organizado em parceria do LPP-UFES (Laboratório de Planejamento e Projetos da UFES) e a Rede Gazeta ocorreu no dia 23 de agosto, no auditório (lotado!!!) da Rede Gazeta. O Seminário buscou um tom didático em suas apresentações e dados, como meio (apoiado por duas grandes instituições capixabas - uma pública e outra privada) de se promover o uso de bicicletas como meio de transporte, lazer e saudável. O Seminário partiu de uma pesquisa iniciada por alunos do Curso de Arquitetura e Urbanismo da UFES, encabeçados pela Profa. Dra. Cristina Engels Alvarez e pelo prof. Dr. Paulo Vargas, do LPP da UFES, que apontou vários dados estatísticos do uso da bicicleta em Vitória (forma, modalidades, gênero etc).


Rodrigo e eu marcando presença!!!!


Alem dos dados gerados, a pesquisa ainda produziu cartilhas educativas para ciclistas e, o mais interessante, uma cartilha para as empresas. Um dos motes do evento foi a criação do selo "Empresa amiga da bike" como meio de incentivar as empresas a também incentivarem seus funcionários no uso de bicicletas como meio de transporte e incentivarem as próprias empresas a oferecerem infra-estrutura (como bicicletários e banheiros com chuveiros por exemplo) para seus funcionários.

As duas cartilhas criadas pela pesquisa
O Seminário teve uma série de palestras ao longo da tarde do dia 23. Rodrigo e eu, por motivos profissionais e familiares, não conseguimos ficar até o final, infelizmente. Mas as que assistimos como a da Profa. Dra. Cristina Engels falando do projeto e dos dados estatísticos coletados ao longo de um ano (que podem ser acessados, em grande medida, como conteúdo de pesquisa sobre assunto, na página criada pela Rede Gazeta aqui), da Prof.a Marta Cruz, da UFES falando das tipologias de ciclovias, dos modelos de paraciclos e bicicletários e da palestra do arquiteto Miguel Ostoja Roguski sobre o exemplo de Curitiba e a inclusão das bicicletas no Plano Diretor da Cidade, deu a medida exata entre os estudos, a importância e a pesquisa acadêmica com a divulgação para um público maior, como forma de conscientização.


O sistema cicloviário de Vitoria e suas tipologias de ciclovias. Fonte: http://www.gazetaonline.com.br/especiais/2017/08/e-ai-vamos-de-bike-1014090658.html.


Mas, algo bem lembrado pelo nosso Rodrigo Mattos, durante as explanações e que valem para todos os eventos que fomos nesse ano, foi a falta da inclusão de outros meios de mobilidade ativa, como os skates, patins, patinetes etc. Mesmo que estes não tenham o alcance, a adesão, o estudo e a pesquisa como é no caso das bicicletas, é inegável que sejam instrumentos ou meio de mobilidade humana tão ou mais interessantes que as bikes. E o melhor de tudo, como menor gasto em infra-estrutura. Entendo que por serem, provavelmente, encarados como coisa para lazer de crianças e jovens, muito se esquece de percebê-los como também possíveis meios de transportes urbanos individuais, mas, ativos. É caso de inserí-los nas discussões de mobilidade urbana, compatibilizando-os com outros modais, por exemplo, assunto esse, por sinal, pouco discutido ainda em Vitória. 

Entre os dias 24 e 25 de agosto, Vitória recebeu o PNUM REDE LUSÓFONA DE MORFOLOGIA URBANA - 2017, com o tema "Morfologia Urbana: Território, Paisagem e Planejamento". O PNUM é uma rede portuguesa, onde se inclui o Brasil, de estudos da forma urbana, através da historia e metodologias de pesquisa. 

Abertura do PNUM 2017, em Vitória.
Nos vários trabalhos apresentados ao longo dos dois dias, no Hotel Golden Tulip, em Vitória, assisti alguns trabalhos (os que consegui por conta de tamanha quantidade e diversidade de temas de meus interesses) onde o conceito  de "caminhabilidade", ou seja, a forma da cidade e de suas estruturas urbanas influenciam, entre outras coisas, na forma como as pessoas percorrem a cidade. É um estudo, de certa forma, recente dentro da Morfologia Urbana, principalmente através dos escritos de Jan Gehl e sua "Cidade para Pessoas", de Jeff Speck com "Cidade caminhável" e Francesco Careri e o "Walkscapes. O caminhar como prática estética". Esse trabalhos, de certa maneira, inserem no estudo da Morfologia Urbana a percepção ambiental da cidade e, por corolário, de sua forma, pelo ato primordial do homem em se deslocar pelo seu meio. Os estudos anteriores de Kevin Lynch com a "Imagem da Cidade", Jane Jacbs com seu livro "Morte e Vida de Grandes Cidades" e Gordon Cullen com seu "Paisagem Urbana", na década de 1960, principiam uma nova forma de se apreender a cidade pelo olhar e pelo andar, percorrendo seus espaços, meandros e imagens. 

O caminhar como prática estética e física, é também uma prática ética, ao entender a cidade em suas nuances e peculiaridades. Ao prestar atenção em sua beleza e em sua feiura também, em seus problemas urbanos, a humanizamos e a trazemos para nossa escala. Que é o que nos falta em muitos, nos dias de hoje.

Bom, é isso! Esses relatos foram uma visão bem geral desses eventos que ocorreram em agosto e de sua importância como fóruns de debate. Valeu!!!

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