Diário de bordo, Fabiano e Rodrigo: Sobre o Seminário de Mobilidade Urbana da Grande Vitória
No último dia 07 de julho estivemos representando o Walk2Bike no Seminário de Mobilidade Urbana da Grande Vitória, evento de quatro horas ocorrido no auditório do Centro de Artes da Universidade Federal do Espírito Santo, e que foi promovido pelo Instituto de Arquitetos do Brasil - Seção Espírito Santo em parceria com a Universidade. O Seminário foi dividido em três painéis, sendo dois técnicos e um histórico, que ocorreram após a fala de abertura da arquiteta Daniela Bonato, do IAB-ES.
![]() |
| Os arquitetos Fabiano Dias e Rodrigo Mattos, do Walk2Bike marcando presença no Seminário. |
![]() |
| A Arquiteta Daniela Bonato, do IAB-ES |
O primeiro painel, teve a explanação do Engenheiro José Fernando Destefani da Secretaria de Transportes do Estado, apresentando os projetos previstos do governo para novas vias, viadutos, ampliações e requalificações de vias existentes nas cidades da Região Metropolitana da Grande Vitória, além da apresentação e discussão sobre a implantação de sistemas de ônibus tipo BRT (Bus Rapid Transit). Destefani traçou um rápido histórico do transporte coletivo na Região da Grande Vitória, a partir dos primeiros estudos realizados sobre essa problemática, em 1979, pelo Instituto Jones do Santos Neves, autarquia estadual ligada ao planejamento estratégico, econômico e urbano. Esses estudos geraram, anos mais tarde, a criação do Sistema TRANSCOL, ainda hoje operante na Região, que interliga por ônibus coletivos e terminais rodoviários os municípios da Grande Vitória.
![]() |
| O engenheiro José Fernando Destefani, do Governo do Estado apresentando as propostas de intervenções viárias |
Após décadas de implantação, o que se percebe, segundo explanação do Engenheiro Destefani, é que mesmo com a implantação do sistema e toda uma série de novas vias e pontes, não houve uma diminuição do uso do carro particular em prol da utilização do transporte coletivo, motivados por fatores externos outros (ampliação do poder aquisitivo e de linhas de financiamento, dando acesso à compra de veículos particulares, por exemplo), e pela própria alteração no projeto do sistema, precarizando-o ao longo do tempo, levando ao aumento do número de veículos particulares nas vias e, consequentemente, ao aumento dos congestionamentos nas vias que cortam as cidades da Grande Vitória, principalmente, e com maiores efeitos, na cidade de Vitória, pois serve de passagem e ligação entre as outras cidades da Região da Grande Vitória.
Como outra consequência os congestionamentos, por conta do aumento do número de veículos, também fizeram aumentar o tempo de viagem dos ônibus coletivos, isso sem contar com aumento populacional das últimas décadas na Região, que demandou e demanda um crescimento na frota de veículos coletivos. Segundo o próprio engenheiro, dados de pesquisas realizadas apontam que uma das maiores "perdas" de tempo nas viagens dos ônibus coletivos são relativas às paradas nos pontos de ônibus, ao longo das rotas de viagem, que demandam um gasto de 37% do total do tempo de viagem. Novos estudos estão sendo feitos pelo estado desde 2007 com o foco em sistemas de transportes coletivos de massa e que sejam mais eficientes e adaptáveis à realidade econômica e urbana da Grande Vitória. Sistemas como o BRT (Bus Rapid Transit), VLT (veículo leve sobre trilhos ) ou ainda, um sistema chinês que une os dois - um trem sobre rodas, articulado e modulado de acordo com as necessidades, que corta a cidade guiado por sensores sob a via - estão em estudo e dependem de recursos financeiros para implantação.
Os mesmos problemas de recursos financeiros impedem que os diversos projetos viários de grande monta apresentados nesse painel se concretizem. Projetos que correm o risco de ficarem somente no papel por conta das dificuldades em se obter os recursos financeiros necessários, ou por questões políticas pelo tempo de execução ou por questões de ordem técnica para a sua execução. Quanto ao pedestre e ao ciclista, as propostas pouco ou nada falaram, limitando-se, segundo a apresentação de Destefani à melhoria de ciclovias e bicicletários em prédios públicos e nos terminais de ônibus.
O segundo painel foi apresentado pelo Engenheiro Leonardo Schulte, da Prefeitura Municipal de Vitória. Em sua explanação, Schulte apresentou os projetos de melhorias viárias - ao todo 64 - propostas pela municipalidade para a cidade que, segundo ele, estão em sintonia e já conversados e acordados com os projetos viários do governo do estado. Em sua grande maioria, esses projetos - requalificações de ruas e avenidas de Vitoria - aumentam as faixas de veículos como forma de melhorar o fluxo de carros pela cidade, ao mesmo tempo em que, segundo Schulte, priorizam a segurança do pedestre e do ciclista ao também aumentar a largura das calçadas (onde for possível, passando para três metros de largura) e na implantação de ciclovias de mão dupla no canteiro central dessas vias.
![]() |
| O engenheiro Leonardo Schulte da Prefeitura de Vitória, com as propostas de intervenção viária para Vitória |
A Prefeitura de Vitória desde o começo dos anos 2000 possui um plano cicloviario para a cidade que vem sendo atualizado e discutido com a sociedade e com cicloativistas, como explicou Schulte. Atualmente, Vitória é atendida por uma estrutura cicloviária com mais de 115 km de extensão. A prioridade dos últimos anos, segundo o engenheiro da Prefeitura é a implantação de ciclovias onde aconteceram acidentes com mortes de ciclistas. As propostas apresentadas, como relatou Leonardo Schulte, visam melhorar a permeabilidade de pedestre e ciclistas pelas vias públicas de Vitória.
Por último, a fala do Professor aposentado do Curso de Arquitetura e Urbanismo André Abe e Diretor do IAB-ES, que apresentou um quadro histórico do desenvolvimento dos transportes públicos na Grande Vitória desde os finais do séc. XIX/começo do XX, onde ainda imperava os deslocamentos a pé ou por bonde puxados a cavalo. Somente após o começo do século passado que a eletricidade chegou a cidade e ao transporte, com os primeiros bondes elétricos.
![]() |
| Professor André Abe apresentando o histórico do transporte público na Grande Vitória |
Grandes obras viárias são realizadas na cidade de Vitória, capital do Estado, como pontes e viadutos e, a partir de 1936, surgem os primeiros caminhões-jardineiras como protótipos dos primeiros ônibus coletivos. A Região da Grande Vitória tem um grande crescimento urbano e populacional a partir de 1940 o que demanda maiores investimentos no transporte público. Mas somente na década de 1970 que surgem os primeiros órgãos de planejamento, como o Instituto Jones dos Santos Neves, do governo do estado. Aproveitando-se a condição geográfica de Vitória, enquanto ilha rodeada pela Baia de Vitória, implantou-se em 1978 o sistema Aquaviário que ligava, principalmente, a capital a cidade vizinha de Vila-Velha.
O sistema atendido por pequenas barcas que cortavam a baia, subsidiado pelo governo do estado, durou enquanto não se finalizava a Terceira Ponte, que interligava fisicamente (e de forma mais rápida) ambas as cidades. A criação do sistema TRANSCOL, em 1986, também foi outro motivador do fim do sistema aquaviário, já que não se conseguiu até aquele momento a integração dos dois modais. Junte-se a isso, o fim do subsidio governamental nas tarifas do aquaviário, o que decretou o fim do sistema. A década de 1980 já apresentava a Grande Vitória com uma população formada por mais de 700.000 habitantes.
A escala metropolitana do conjunto de cidades que giravam em torno da capital Vitória já era uma realidade e os planejamentos do estado focavam, principalmente, no fluxo de pessoas e veículos que circulava por entre esse território. Os anos de 1990, segundo Abe, consolidam o sistema TRANSCOL em uma região em rápida expansão urbana. A população da Grande Vitória vai de pouco mais de 1.000.000 de habitantes nos anos 90 para 1.300.000 já nos anos 2000. E agora, em 2017, como aponta o professor, a realidade do transporte público da Grande Vitória se apresenta deficitária, pois não consegue atender em volume e qualidade sua população residente.
Considerações:
Os painéis e o Seminário em si, foram fechados com um debate mediado pelo Prof. do DAU-UFES, Kleber Frizzera, que apontou em sua fala a necessidade de se pensar a cidade de forma adensada, como meio de se diminuir os deslocamentos, aumentando-se as ofertas de serviços nos bairros. As perguntas feitas pelos ouvintes foram direcionadas, de forma crítica, a preocupação real sobre a possibilidade econômica e política de se realizar as obras apontadas pelos engenheiros, pois o montante de obras, aliadas ao tempo necessário, aos investimentos a serem alocados e, ao momento de crise institucional por qual passa o país, criam um horizonte pouco favorável para essas obras.
Percebemos ao longo das falas de ambos engenheiros, que as propostas focaram em uma engenharia viária, faltando, porém, uma maior "urbanidade" nas mesmas, uma conexão das propostas de alteração do trânsito e fluxos de carros com espaços urbanos públicos, por exemplo, além de uma preocupação que não transpareceu nas falas, da conexão ou integração entre modais, característica fundamental ao se falar ou se discutir mobilidade urbana.
Além disso, pelos questionamentos feitos, inclusive de Rodrigo, ficou claro que o debate ou a discussão às voltas do tema não se esgota em um Seminário de curta duração. Esse debate deve ser ampliado, envolvendo outras camadas da sociedade, entidades e grupos que usam, debatem e discutem o espaço urbano em suas variadas formas, principalmente quanto à Mobilidade Urbana. De todo modo, o IAB ES e a UFES estão de parabéns pela iniciativa e que a mesma se repita e não finde nesse evento. Nós do Walk2Bike, criamos esse espaço exatamente para isso: através de nossas experiências urbanas com bikes, caminhadas e derivações afins, debater e discutir o espaço da cidade, o espaço urbano e a forma como as pessoas utilizam e se apropriam dele.
![]() |
Formação da mesa redonda com os palestrantes, mediada pelo Prof. Kleber Frizzera
|
![]() |
| O professor e arquiteto Rodrigo Mattos, do Walk2Bike, expondo seu ponto de vista crítico quanto às propostas apresentadas. |







Comentários
Postar um comentário
Responderemos em breve! Agradecemos sua visita.
Walk2Bike: experiências urbanas.