Diário de bordo, Rodrigo Mattos: Acessibilidade? Onde?
Nada incomoda mais um ciclista que a impossibilidade de pedalar.
Semana passada quebrei o dedo do pé e para não ficar com uma dor crônica quando cicatrizasse, coloquei uma tala de gesso no pé que me impede de pisar. Com isso tive que usar muletas e também uma cadeira de rodas.
Para não ficar dando uma de chato e reclamando da vida, resolvi aproveitar e tornar a experiência um teste de nossas normas de acessibilidade.
Nada como se colocar na pele daquele que depende das normas de acessibilidade para se locomover. Andar pelas calçadas "cidadãs" mostrou ser um desafio. Elas não são padronizadas, não tem piso contínuo e claro, possuem buracos. Até mesmo as soluções de piso tátil podem ser um desafio a um portador de necessidades especiais.
Muitos pisos podo-táteis estão colocados corretamente, mas o problema é a continuidade: como a responsabilidade de execução das calçadas fica por conta do proprietário do imóvel, cada calçada tem sua peculiaridade, sua escolha de revestimento. Talvez, fosse melhor a prefeitura assumir a confecção das calçadas e cobrar no IPTU as melhorias, assim haveria um padrão e um responsável a quem recorrer, em caso de manutenção. Além de criar uma identidade única para toda a cidade.
Tropecei, tive que subir e descer de "rampas de acessibilidade" que possuíam rachaduras e desníveis que não estavam na inclinação correta. Passei por portas que não acomodam a largura extra das muletas e senti olhares condescendentes das pessoas que por mim passavam, bem como, gestos de ajuda expontâneos. Me peguei pensando na forma como tratamos os portadores de necessidades especiais e nas nossas leis. Vi que as vezes o esforço para adaptar um espaço a acessibilidade é pior que deixá-lo como está, porque a solução quase sempre precisa fugir da norma e não ajuda o acesso de quem precisa.
Há mais de um mês havia comprado um ingresso para um evento de música e não quis deixar de ir, (mesmo estando com o pé enfaixado) e para isso, aluguei uma cadeira de rodas. Ótima idéia de não precisar ter que me equilibrar em um par de muletas no meio da multidão, mas as dificuldades não foram poucas e ainda bem que minha situação é temporária. Como Arquiteto-Urbanista isso me incomodou muito.
Mesmo com ajuda de um amigo, foi difícil me deslocar da rua para a calçada, passar no portão de acesso de meu prédio, sem ralar os dedos e quase ficar preso pelo acionamento automático do portão. Compartilhar o mesmo elevador foi um desafio e entrar no apartamento foi sem muitos problemas, mas, tive que limitar o acesso da cadeira à sala de estar/jantar, pois nenhuma outra porta permitia a passagem da cadeira. Chegou a hora de ir para o evento novamente... uma aventura tentar girar dentro do elevador, passar novamente pelo portão e agora colocar a cadeira no taxi. Nem todos os taxis são acessíveis e por possuírem sistemas de GNV, Gás Natural Veicular, seus porta-malas não comportam uma cadeira de rodas. Fica a dica para que os veículos destinados ao serviço de taxi possuam pelo menos a capacidade de levar uma cadeira de rodas, sem precisar ser espremida sobre um eventual passageiro extra, o que aconteceu, no meu caso. Não posso reclamar do serviço e disponibilidade dos taxistas, todos se mostraram muito solícitos.
No evento fui acolhido por todo mundo de forma positiva e minha condição me garantiu um espaço no camarote da produção, difícil foi subir porque não havia acessibilidade no camarote. Mais uma vez precisei da ajuda dos colegas e amigos que estavam comigo. Como não tinha como entrar e sair do camarote, fiquei dependendo de outras pessoas para me conseguirem uma água, cerveja ou até mesmo um hambúrguer. Fui tratado como um guerreiro que não se dá por vencido. Na hora de ir embora mais uma o teste demonstrou ser realmente uma batalha: subir a rampa de acesso de veículos, em direção a avenida, para pegar o taxi que me deixaria em casa. Foi necessário que eu e um amigo fizéssemos uma força considerável morro acima.
Como minha primeira participação no nosso blog Walk2Bike, acho que está de bom tamanho.
Para os que conseguiram chegar até o fim, deixo meu apelo para prestarem mais atenção naqueles que não possuem as mesmas condições de mobilidade que você. Que na hora de realizar um projeto, pensem na acessibilidade/mobilidade, não só daquele que está permanentemente dependente, mas na possibilidade de, se um dia você precisar usar o benefício de uma cidade acessível. E que mesmo sendo necessário existir acessibilidade universal, em alguns momentos, não é vergonhoso pedir ajuda.
Valeu e até a próxima!!!

👍👍👍👍👍👍
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